Sábado à noite e estávamos firmes novamente após beijos e tapas, idas e vindas. Tudo ao meu redor parecia um sonho infantil, as luzes do parque estavam bem mais cintilantes do que o normal. Meus olhos ardiam observando tanta luminosidade, as pessoas riam e falavam alto, a banda fazia barulho além da conta, bocas famintas devoravam lascivamente hambúrgueres e batatas… Por que qualquer coisinha estava me aborrecendo naquele momento? Embaixo da mesinha da lanchonete, minha perna batia impacientemente.

E em meio ao caos nos reencontramos, mais um erro repetido para a nossa conta. Bufando, eu simplesmente não acreditava como ainda conseguia ter paciência com nossa relação sempre tão problemática. Meu corpo estava cansado de tanto trabalhar, meu vestido incomodava meu corpo, algumas lágrimas em meus olhos lutavam contra a minha razão. Olhando para seu rosto pálido e sem nenhuma emoção perguntei para mim mesma: por quê?

Por que ainda nos aturamos como se nada ruim tivesse acontecido entre nós? Tanto era o sofrimento engasgado que mal conseguia ter fome. Encarei a comida, ela parecia deliciosa. Respirei fundo, tentei pensar de forma positiva e curtir o momento. Qual era o lado positivo de tanto abuso pelas duas partes? Tamanho rancor em meu peito, mal assimilava o que acontecia quando estávamos juntos.

Mais uma vez você sorria daquele jeito perverso, como um louco. Será que as pessoas ao redor eram capazes de decifrar nossos olhares tão cheios de ódio? Eu dizia te amar, esse amor me atormentava cada vez mais. Novamente pensei que eu poderia ter o mundo, só que a felicidade por estar com você era um engano. Nossa relação tão cheia de mentiras era literalmente uma lenda urbana. Se até eu acreditava, suponho que você também.

Em um riso frouxo e diabólico, cruzei os braços e ri de toda desgraça. Mais um perdedor em minha vida! Me afastei para puxar um cigarro, daqueles de filtro vermelho . Senti o sabor da morte sujando o filtro com batom vinho, aquele batom que ninguém teria ousadia de borrar. Minha maquiagem ainda permanecia intacta longe das lágrimas iminentes.

Mais uma vez ajeitei meu vestido, minha lingerie rendada parecia prender minha circulação sanguínea. Meu perfume era barato, coisa de vagabunda. Meu corpo havia sido quebrado, minha alma estava despedaçada. Por que achei que você era a pessoa capaz de me reconstruir no pior momento da minha vida? Com esse pensamento, larguei tudo, corri daquele lugar sufocante.

Do lado de fora da lanchonete, terminava meu cigarro enquanto observava a tão colorida roda gigante cheia de casais apaixonados. Pois é, eu já tinha sido apaixonada como muitas garotas que estavam lá. E sabe o que aconteceu quando eu ainda era apaixonada? Você namorava outra, saía com outra, via filmes com outra e até viajava com outra! E eu era apenas sua segunda opção, uma acompanhante de luxo que nunca ganhou nada por essa devoção.

―Aconteceu alguma coisa? ― você chegou ao meu lado bebendo sua coca zero. Ainda odeio coca zero por sua causa. ― Você saiu correndo do nada!

―Estou fugindo de mim mesma. Faço isso às vezes.

Nesse instante, senti nossos corpos se aproximando cada vez mais. Meu coração acelerou, virei o rosto e busquei mais um cigarro em minha bolsa.

―Odeio que você fume.

―É para morrer mais rápido…― falei sarcasticamente. ― Desde quando você se importa comigo?

―Só não gosto que você fume!

Por alguns segundos, você permaneceu quieto observando a roda gigante com os casais apaixonados ou qualquer outro detalhe inútil. Será que você se lembrou de que já fomos iludidos no passado?

―Você ainda usa esses sapatos? Eles são da época em que a gente se conheceu.

― Nada especial, são resistentes… ― olhei para o lado. ― E você não se cansa de beber coca zero?

Não fumei mais, apenas cruzei meus braços e desviei minha atenção para a Lua que iluminava o céu tão escuro. Era outubro, o outubro mais intenso de toda a minha vida. Tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, eu explodia como uma cereja na boca.

―Preciso ir.

―Tem certeza? Você pode dormir na minha casa, como nos velhos tempos.

―Não. Eu não quero.

Não nos despedimos, apenas saí correndo e você foi andando atrás de mim. Corri o máximo que pude com meus sapatos velhos. Novamente fugindo.Você era a parte da minha vida que me incomodava. Como uma doença, eu sabia que precisava me curar daquele sentimento ruim antes que fosse tarde demais.

Fiz sinal para o primeiro táxi que apareceu. Quando o motorista parou, entrei no carro e uma lágrima escorreu no meu rosto. Logo passei a soluçar de tanto chorar. Você tinha me matado em sua vida, novamente o gosto de morte. Éramos um lindo casal de psicopatas românticos e, desde sempre, sabia que meu final seria apenas chorar.

E você? Você seguiria a vida como se aquela noite não tivesse acontecido.



Música: Satuday Night

Artista: Misfits

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9 comentários sobre “Sábado à Noite

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