Era um dia como qualquer outro. Era uma conversa como qualquer outra, naquele quarto mal iluminado. Minha barba por fazer refletia a dele, como uma cópia em que a tinta sobre o papel falhava.

Naquele momento, contava a ele o que tinha acontecido: “Foi um sonho estranho, eu estava procurando por você. Não que eu tivesse algum motivo em especial para fazer isso”, completei, e rimos, juntos. Havia certo descontentamento misturado ao desespero daqueles sons agudos e irregulares de riso. “A rua em que eu estava era uma daquelas que são sinônimos de problema. Como aquela atrás lá de casa, sabe? Aquele lugar imundo, tão afogado em podridão que revira o estômago. Um daqueles lugares em que é perceptível que algo ruim acontecerá, cedo ou tarde”. Fiz uma pausa longa e olhei janela afora. Procurava palavras pra continuar.

Respirei fundo, como se tragasse algo no oxigênio. “Enfim”, continuei, “Eu só sabia de tudo isso porque era um sonho. E eu sabia que era um sonho. Então, quando aquele homem estranho apareceu – é claro que ele apareceu, eu sabia que viria – se aproximou de mim e me pediu os pertences, eu ri. Dá pra acreditar nisso?” Parei de falar enquanto uma terceira pessoa cruzou a sala. Entrou, permaneceu por alguns minutos, e saiu. Não me importei.

“Então, quando ele apontou a arma pra mim”, concluí, depois de algum tempo, “eu simplesmente disse a ele para acabar logo com aquilo. Para acabar com aquele sofrimento, para me acordar”. Nesse momento, o rosto do meu interlocutor perguntou “e então?”. Prossegui.

“Acordei. Acordei e senti que deveria te contar essa história louca”. Ri, mais uma vez. Com todo aquele desespero brando, agora mais nítido, claro. Então, à medida que a porta se abria, e a mulher vestida de branco entrava no recinto, o sol, num doloroso sincronismo, adentrou cada canto daquele quarto.

E iluminou todos os detalhes daquele leito hospitalar. O rosto inexpressivo dele, deitado. Sereno. Todos aqueles fios e cabos, a irritante traqueostomia e as sondas.

Agora, como no sonho, enquanto a enfermeira se aproxima, eu suplico. Ela separa os lábios. Me diz que é irreversível. Que ele jamais irá acordar. Meu rosto é uma cópia malfeita do dele. Falta tinta. Tento conter as lágrimas ao passo que o toque informal das mãos dela miseravelmente tenta me acalentar.

Com o rosto molhado, saio daquele ambiente. Sem adeus, sem despedida. Sei o que vou fazer. Ando porta afora.

Procurar por ele. Tentar me encontrar.

Aonde você foi?
Eu sinto tanto sua falta.
Parece que já faz uma eternidade
desde que você se foi.
Por favor, volte pra casa.




Música: Where’d you go?

Artista: Fort Minor

Este texto foi possível graças aos apoiadores Rafael Pombo, Ari Alves e Leonardo Custódio. 
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4 comentários sobre “Aonde você foi?

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