O ciclo começa com um despertar. Num local sujo – não só pela poeira. Chicão acordou às quatro da manhã. Mal havia dormido, mas precisava fazer o que fazia todos os dias, por ele, pela família, e pelas contas que não paravam de chegar.

Sobreviver.

Sentia-se diferente naquela manhã. Todos na casa dormiam. Não quis incomodar sua mulher para lhe fazer o café e a beijou, ainda adormecida. Seus sete filhos, do mais novo ao mais velho, foram beijados também, antes que saísse.

O gosto amargo do café que Chicão fez para ele próprio era um catalisador de reflexão.  Os olhares dos curiosos deitados sobre as lágrimas que caíam na pele negra e no asfalto. Não conseguia suportar aquela manhã, tão igual às outras que era difícil reconhecer um dia depois do outro.

Duas horas e meia até chegar ao trabalho. Ônibus barulhento, metrô abarrotado e quinze minutos de caminhada silenciosa. Depois de tantas centenas de dias, o trajeto se tornou mecânico.

Viu a construção que o esperava para erguer mais algumas paredes, debaixo daquele sol cada vez mais próximo, cada vez mais alto. Foi em direção ao bar, tão sujo quanto ele estaria depois do dia de trabalho. Uma cachaça o esperava, como o esperava todos os dias. Os bêbados da noite passada ainda estavam ali – e Chicão já esteve entre eles antes. Engoliu com a garganta queimando, incapaz de discernir um dia do outro no gosto da cana.

– Obrigado, patrão. Deus lhe pague – disse Chicão.

– E dia cinco você também paga, se Deus quiser – respondeu, virando as costas meio ranzinza.

Entrou pela poeira da construção que agora marcava seus pés grandes e doloridos, inchados do trabalho em pé e dos quarenta minutos de caminhada todos os dias, sem contar o período em pé no ônibus ou metrô. Subiu degrau após degrau, andaime após andaime, lágrima após lágrima. Chegou ao destino.

 O cimento batido, os companheiros caçoando do seu atraso bêbado, rindo com esgares falsos, tão descartáveis e passageiros. A construção cheia de gente vazia.

Não que não fossem pessoas boas, todos eles. São vítimas nisso tudo. São peões. Era nisso que Chicão pensava quando os olhos refletiam a avenida abaixo dele e começa a erguer a primeira parede do dia, tijolo após tijolo, separando-o do resto da população.

As dores eram constantes, no corpo, na cabeça e no coração. Cada vez que erguia a mão a fim de colocar mais um tijolo pensava que nunca entraria naquele prédio depois de pronto. Porque não podia. Porque era preto. Porque era pobre. Porque era pedreiro.

Os boletos passavam pela sua mente.

Multa, atraso, nome sujo, empréstimo. Os sons dos carros pareciam ainda mais distantes quando o pensamento se aproximava deles.

A vida de erguer prédios para ouvir que ele não pode entrar neles. O ato de construir a própria civilização e ter de suportar o fardo de não poder fazer parte dela. Chicão não conseguia parar de pensar no dia em que apertou a mão do agiota.

Tentava não usar essa palavra, nem para os outros nem para si mesmo – agiota – afinal, era só um amigo que emprestou dinheiro, para depois receber de volta com uma pequena correção. Mas sabia que eles não eram amigos – ele era agiota. Sabia disso porque ele cheirava a suor e o amigo tomava banho de perfume. Lembrava-se de que foi o último dia dele sem beber.

O olhar afundou no asfalto. Ouviu o troco da cachaça cair sobre o cimento. E, na verdade, não ouviu nada. Porque não havia troco da cachaça. Porque estava devendo. Ele observou com olhos turvos, a cabeça ficando zonza. Foi só uma cachaça, só uma dose. Não foi?

Cada tijolo era uma lágrima. Cada lágrima, um descontentamento. De uma vivência tão simplória, de um simplismo tão complexo. Os carros agora pareciam convidativos pontos de luz de um mundo de sonhos, reflexos do sol que fazia a pele negra suar.

No ar, Chicão tropeçou. Caiu para um lugar melhor. Pronto para largar a cachaça da alma. Disposto a atrapalhar o trânsito, atiçar os curiosos e ser ainda mais injustiçado quando ele agonizar sobre o chão quente de um inferno real.

Lembrou-se do mísero salário informal recebido no fim daquele serviço, que traria pão, se Deus quiser.  A sujeira sobre seu rosto já era passado. O sangue que escorria não era o do corpo. O choro era silencioso. Sabia que a conta não iria fechar, e o dinheiro ainda ia faltar. Baixaria a cabeça e iria atrás de outro serviço, como sempre fez.

Viu a mulher passar fome, os filhos trabalharem como cães num destino quase tão desafortunado quanto o de Chicão. Viu a história se repetir, viu o ciclo. Balbuciou que estava cansado, mas ninguém ouviu.

“Deveriam ter ensinado a pescar ao invés de dar o peixe, aí não tinha morrido!”, diziam as pessoas que ali passavam. Exigiam que ele pescasse um peixe que nunca tinha visto, enquanto Chicão se reduzia a uma mera mancha no asfalto. Sem vara. Sem lago. Pegando no anzol só a falsa sensação de igualdade.

“Isso aí é um bêbado!”. Tanto quanto qualquer falso cidadão inebriado pela cortina da imposição.

Chicão chorou. Chorou como nunca havia chorado na vida. Não só por ele, mas por todos. Pela cachaça, o sangue, o tráfego, o peixe, a vara, o lago, o estudo e o dinheiro.

Era o que teria acontecido, se sua mente não o tivesse enganado. Uma mão o puxou. A mão do estagiário da obra, que também tomava banho de perfume, mas era honesto.

Um rapaz de riso fácil e sempre disposto a ajudar. Chegaria longe como engenheiro, se conseguisse se acostumar com o sol constante na pele branca. Estava no lugar certo na hora certa – e com a quantidade adequada de esforço, teria uma qualidade de vida digna. Plano de saúde, um carro, quem sabe até uma casa com piscina.

– Calma, campeão, a gente só cai na sexta-feira depois do expediente.

Segurou Chicão com força, mas o pedreiro não sentiu muito alívio. Teve mais medo de não cair do que de se encontrar no chão lá em baixo.

Acordaria mais uma vez às cinco da manhã, sem querer incomodar a mulher e os filhos, com o gosto de café malfeito e de cachaça sob o cheiro da construção.

Fechou os olhos por cada preto pobre que não entrou na edificação que ele próprio ergueu. Por cada filho de ninguém coberto de álcool e cimento. Pelos filhos e mulheres adormecidos.

Abriu a boca para responder, sentindo ao mesmo tempo medo e gratidão. Desejando um dia sem sabor de inferno.

– Deus lhe pague.


Música: Construção

Artista: Chico Buarque

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