Com o nome inspirado no livro O alienista, de Machado de Assis, o grupo Inquilinos da Casa Verde surgiu na capital carioca nos trazendo música popular brasileira de altíssima qualidade. Trata-se de uma parceria entre amigos que amadureceram juntos em suas carreiras musicais e se uniram para lançar suas composições que já estão disponíveis no EP Reato. A formação dos Inquilinos conta com Matheus Schmidt (baixo e vocal), Wada Soares (guitarra), Kadu Barros (violão e vocal), Filipe Padrão (bateria) e muita história pra contar.

O projeto musical demorou a sair do papel, até mesmo chegou a ser deixado de lado por dificuldades típicas da vida. Todos os amigos já possuíam experiências no ramo musical, porém nenhum deles até então tinha lançado suas próprias músicas. Atravessando altos e baixos, a união do grupo foi marcada por um resgate de trabalhos individuais antigos que passaram por reformulações em conjunto. O toque de cada um nas composições individuais concretizou a união e a identidade da banda.

Reato possui canções antigas que marcaram a vida de seus compositores, apenas Reza Forte é um trabalho mais recente. Suas influências são diversas, há uma intensa mistura de ritmos regionais com elementos mais modernos em uma roupagem que se encaixa na música popular.

Os Inquilinos toparam conversar com o Sete Oitavas sobre a trajetória da banda!

Sete OitavasNo Spotify vocês contam que o projeto demorou um pouco para sair do papel. Como foi esse processo?

Matheus Smithd – Eu conheço o Wada (guitarrista) e o Kadu (violonista) desde a adolescência. Eles fazem parte da minha trajetória musical e vice e versa. Essas músicas que a gente lançou no EP, exceto Reza Forte, são quatro músicas antigas que fizeram parte da nossa vida. Eu apresentei o Wada e o Kadu um ao outro há um tempo e todos tinham uma gama de composições paradas. Todo mundo trabalhava ou já tinha trabalhado com música, mas ninguém tinha lançado uma música autoral. Isso era uma coisa que a gente sentia falta e, como três compositores muito próximos dessa roupagem de MPB, a gente tentou fazer esse projeto e ele foi deixado de lado.

A gente juntou as músicas antigas, deu uma unidade para elas e rearranjou de uma maneira muito mais coesa. Todo mundo participou dos arranjos e, através disso, ocorreu o ressurgimento do grupo com novas ideias e novas composições. A ideia foi focar em fazer só um CD e ter esse retorno, por isso “Reato”. Reato é sobre agir de novo, (a palavra) tem o significado de culpado e também quer dizer nó. Quando eu falo que demorou a sair do papel, demorou uma vida inteira! Para todo mundo que está na banda foi a primeira composição lançada! O Inquilinos surgiu, acabou e agora teve esse reato.

Sete Oitavas – Quais artistas e bandas fizeram vocês optarem pela MPB?

Kadu Barros – Acho que a MPB tem uma coisa ímpar de conseguir misturar muito bem referências de ritmos, timbres e melodias diversas, que é uma característica do Brasil. Então figuras como Elis Regina, Gilberto Gil, Lenine, Jorge Ben que trouxeram esse trabalho ao longo de diferentes gerações sempre influenciaram a gente e estiveram na nossa cabeça logo de início quando a gente pensou nesse trabalho.

Matheus Smithd – A MPB é um estilo que possibilita muito mais a mistura de ritmos, fora a ideia de fazer um som verdadeiramente brasileiro que tivesse esse resgate ao mundo dos anos 70. Mesmo misturado, ele possui uma essência que a gente queria preservar sem nenhuma pretensão de “oh somos artistas brasileiros”, mas sim por ser algo que a gente gosta.

Sete Oitavas – Podemos perceber que a banda possui muitas influências literárias. De onde surgiu a ideia de homenagear Machado de Assis?

Wada Soares – Acho interessante que a gente sempre teve esse nome que é “Inquilinos da Casa Verde”. Lá em 2013, quando a gente se reuniu pela primeira vez para trabalhar composições pensando nesse projeto, eu tinha acabado de ler o Alienista do Machado de Assis. A história conta justamente que um médico abre um hospício na cidade, a Casa Verde, e ele começa a internar as pessoas. Primeiro porque elas parecem de fato monomaníacas e depois ele perde essa referência e começa a internar todo mundo até a cidade inteira parar no hospício. Aí como a gente tinha a questão da loucura e isso parecia em algumas composições, eu achei que tinha a ver. Sugeri esse nome até por uma coisa do louco dos Mutantes “dizem que sou louco por pensar assim”, aí eles curtiram e a gente batizou a banda.

Também pela questão da sonoridade! Com nome de banda não é só sentido, mas também é sonoridade. Quando comecei a falar para algumas pessoas qual era o nome, a gente começou a ter muitas reações distantes “parece nome de banda de rock dos anos 80”. Outras diziam que parecia nome de escola de samba ou de bloco de carnaval, aí que a gente curtiu mesmo.

Sete Oitavas – Espelho foi o primeiro single da banda, lançado em plena quarentena. Como foi a recepção do público?

Kadu Barros– A recepção da nossa primeira música “Espelho” foi realmente muito boa. Foi incrível ver pessoas de vários lugares do Brasil e do mundo pedindo para tocar nas suas playlists, nas suas redes, nas suas rádios. A gente acha que conseguiu chegar muito bem no público em geral com um som animado e dançante num momento em que nenhum de nós poderia prever, mas é essa a situação do mundo paralisado diante de uma pandemia. A arte vem como uma das maneiras da gente superar isso, de conseguir manter a sanidade e também sentir essa catarse… botar para fora, ouvir, relaxar, curtir um som bom. Então acho que tudo isso esteve junto nessa mistura que fez o lançamento de espelho ser uma experiência tão boa.

Matheus Smithd – Acho que Espelho resume bem a mistura que a gente fez no EP daí a escolha da primeira música. Eu componho desde os 14 anos de idade e a minha primeira música lançada foi Espelho com 27 anos. É uma música que eu tenho desde os 15 anos, então o significado também foi enorme pelo lançamento em si. A recepção quebrou todas as (nossas) expectativas da galera realmente curtir e dar o feedback.

Sete Oitavas – O que vocês mais gostam no EP Reato?

Arte: Fernanda Pontes

Matheus Smithd – O que eu mais gosto é que ele é símbolo de um trabalho quem vem de muito tempo. Todas as músicas na verdade são individuais, a gente mantém esse padrão e não compõe em coautoria. O que a gente fez nesse EP foi amarrar as músicas de uma forma que tivesse coesão e narrativa que pudessem dar uma cara que fosse nossa.

O Reato é o símbolo de reatar nós, desse ressurgimento do nosso interesse por música autoral que estava afastada e ao mesmo tempo uma admissão de culpa. O que eu mais gosto é isso: o trabalho que cada uma das pessoas teve para o arranjo final. O nome me veio como uma espécie de epifania, uma coisa meio “criar um neologismo” porque reato é culpado e também fazer uma onda de “re ato” e reatar nós. A gente pensa no que cada palavra pode significar.

Kadu Barros – O que eu pessoalmente mais gostei no EP foi a forma como cada uma das composições individuais se transformou ao longo desse processo de gravação com a contribuição de cada um. Principalmente agora que ele tá lançado e que a gente recebe do público as reações e interpretações, como a gente vê que essa arte está se transformando. Acho que a arte realmente só se consolida no outro, quando ela causa um impacto, um sentimento, uma emoção em alguém. Então ver que isso tá acontecendo com nosso trabalho mostra que ele realmente está cumprindo com o seu papel e é muito gratificante.

Wada Soares – O que eu mais gosto é da pluralidade dele. Acho que é como ele traça linhas nessa simbologia do reatar o nó, mas ele traça linhas entre pontos que são aparentemente muito distantes unindo essas coisas. Quando você ouve o EP, você nota que existe ali um caráter multifacetado de sentidos e até mesmo de estilos. Acho que dá pra notar ouvindo que há diferenças nas composições e isso é bom porque a ideia da banda é essa: compositores individuais que se unem.

Sete Oitavas – A partir de agora, qual será o próximo passo da banda?

Matheus Smithd – Acho que é divulgar esse EP mesmo e gerar material com ele, vários conteúdos, making off´s, alguns vídeos de lives, participações de pessoas no Visitantes da Casa Verde.

É engraçado porque a gente lançou o EP durante o período inicial do isolamento da pandemia, mas não foi uma coisa planejada… a gente ia lançar já nessa data e o isolamento pegou de surpresa, assim como pegou um monte de gente também. A ideia inicial era fazer show, mas não está havendo a possibilidade. Enquanto isso, a internet vai ser nossa aliada para gerar material. Juntando repertório e fazendo uma espécie de pré-repertório, no fim da pandemia tudo já estará engatilhado para fazer shows com o repertório certinho.

Confiara o trabalho da banda:

Instagram

Facebook

Spotify

Apple Music

Deezer

Agradecimentos: Inquilinos da Casa Verde e Almeno Campos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *