Tudo isso não durou mais que dois minutos. Engulo em seco. Há pouco percebi que não consigo encará-la. Olho no olho já não me serve desde que percebi que eu me sentia profundamente atraído por ela. Por que sinto que tudo está tão diferente do que realmente deveria ser? Eu fico envergonhado, mas nunca por tanto tempo. Respiro fundo e procuro conter a palpitação enquanto envolvo o copo com a palma quase trêmula.

Levanto os olhos lentamente. As mãos dela invadem meu campo de visão em câmera lenta. Não é nada para se impressionar, seu idiota, ela só está segurando o copo. Por que raios isso parece tão sensual? Dessa vez não desvio o olhar. Não consigo, na verdade. As mãos magras envolvem o copo, com os dedos finos que já vi tantas vezes e que nunca perdiam o encanto.  Ela leva o copo à boca.

A parte da minha consciência que formula as perguntas é a mesma que gargalha quando olho para a boca. Uma fração de segundo, um milésimo daqueles lábios bebericando uma mistura qualquer me fazia cair do pedestal. O orgulho fica calado e o rubor em meu rosto não deixa que eu minta mais. Minhas pálpebras despencam num piscar que pareceu durar uma eternidade. Eu torcia para que meus olhos se abrissem logo, para que pudesse vê-la. Um sorriso malicioso e irônico. As mãos inclinam o copo num gesto rápido que pergunta “O que foi?”

Tudo bem, preciso olhá-la nos olhos. Toda vez que faço isso, penso que era desses olhos que Machado de Assis falava. Esqueça todos os outros! São esses olhos aqui! Esses fundos, semicerrados, cansados e irônicos olhos. Tudo isso me parece uma fotografia. O gesto, o sorriso e o olhar. Os lábios tremem levemente, parecendo ensaiar uma pergunta. Não, não faça isso! Já chega! Eu não tenho mais dezesseis anos, céus!

Preciso dizer alguma coisa. Foram só alguns segundos de silêncio, mas ela sabe que eu quero falar. Ela sempre sabe. Encaro o nada, mas vejo tudo. Não é nada. Não, nada mesmo. Diga! Abra essa maldita boca e conte a ela que todo esse fluxo de pensamentos não passa de ansiedade. Só ansiedade, nada mais! Não pode ser nada mais!

Você quer contar a ela. Quer dizer que se sente estranho quando ela sorri assim. Que volta a ser um adolescente inconsequente. Perde o senso de responsabilidade e a noção de tempo. Por que não? Por que a ideia de ouvir um “não” é tão ruim?

Minha perna martela o chão enquanto formulo versões da conclusão desse épico. A primeira, claro, é o gesto transformando-se numa surpresa. Uma negação simples resumida em levantar-se e ir embora, sem rodeios. Rápido e indolor, como um tiro. Até parece.

A segunda possibilidade é uma conversa lenta e dolorosa. Um “não” agonizante, que faz o sentimento escorrer por entre os dedos, escapando segundo a segundo, tornando-se pesadelo. Como posso ter coragem de ao menos ter considerado a hipótese. Diga a ela! Cale-se!

Quero jogar pela janela a mesa. Destruir o bar. Gritar com tudo e todos. Parecer um louco, fazer estardalhaço. Tudo para que ela vá embora.

Mas e se não for?

E se ela quiser fazer estardalhaço comigo?

Por que eu sequer estou considerando a hipótese?

Conte a ela! Não quero ser deixado sozinho nessa mesa. Não quero ter que sair daqui pensando que estraguei tudo. Vamos, inércia, você nunca me falhou. Respire fundo e abra a boca apenas para dizer que se lembrou de uma piada muito boa. Mude de assunto. Comece um assunto. Qualquer coisa.

Ótimo. Balanço a cabeça, espanto os pensamentos. Por quanto tempo eu fiquei preso nisso? Sinto algo no meu braço. Um arrepio percorre meu corpo inteiro e não consigo conter o susto. Quase pulo da cadeira. A adrenalina invade o sangue e meu coração grita. É a mão dela. Os dedos magros. Pisquei. Não percebi que ela tinha chegado tão perto. Do nada. Acalme-se, ela só ficou preocupada.

E agora? Estou acanhado ou pálido? Gostaria de poder mensurar quantas perguntas eu fiz a mim mesmo nesses pequenos segundos. Já não importa, porque isso é bom. É confortável. Preocupante, também. A mão dela sobre o meu braço está me deixando louco. Não no sentido sensual. Realmente sinto que vou ceder a qualquer momento.

Abro a boca. Vou dizer que não é nada, mas não consigo. Aqueles dois olhos cansados estão olhando para e mim e… os lábios dela estão nos meus.

O quê? Por quê? Pisco. Não estou delirando. Ela me beija. Para por um momento. Olha nos meus olhos e sussurra um “está tudo bem”. Não contesto. De maneira nenhuma. Às vezes parece que ela sabe de tudo. A voz interior, que gargalhava, está perplexa, tanto quanto eu. Meu corpo, do nada, começa a quebrar a pequena casca de ansiedade e envolvê-la nos braços. Vamos! Agarre-a! Não deixe que esse momento saia da sua memória. Nunca.

Não permita que… Não acredito que vou dizer isso. Pensar nisso já é constrangedor o bastante. A voz da minha consciência me olha e dá um sorriso de canto de rosto. É embaraçoso, sim, mas vou dizer a mim mesmo.

Não permita que o temor seja maior que o amor.

Pronto. Eu disse. É brega demais. Amor, paixão. Sei lá. Não quero saber, só preciso desse momento, desse beijo, desse sentimento. Eu me entreguei a todos esses dizeres piegas. Minha mente finalmente encontrou alguns segundos de paz.

Tudo isso não durou mais que dois minutos. Mas o beijo. Ah, o beijo… O beijo durou uma eternidade.

Música: Everlong

Artista: Foo Fighters

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6 comentários sobre “Uma eternidade

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