– Tenho que desligar, estou chegando na palestra e celulares não são permitidos – era a primeira palestra do ano, e envolvia calouros e veteranos. Eu não sabia o que esperar exatamente, afinal, agora tudo era novo e surpreendente pra mim. Ficava difícil deduzir qualquer coisa naquele momento – Até mais tarde, e me deseje sorte. Vou precisar.

– Não precisa de sorte, precisa de uma boina e uma xícara de café – ela disse aos risos e desligamos. Tudo bem que eu não precisava exatamente de uma boina e café, mas havia entendido o que Kate queria dizer. E ela tinha razão, eu só precisava me adaptar e me enturmar. Tudo daria certo. Não podia ser tão difícil assim.

Caminhei mais rápido, seguindo o fluxo de alunos e acabei me vendo dentro de um salão, não muito grande, mas ainda assim repleto de filas e mais filas com cadeiras cujos forros eram de um tecido escuro e reforçado. O palco tinha piso de carvalho e, ao centro, era possível ver um pedestal de madeira pronto para uso.

As paredes do auditório eram de um tom terroso, e nelas pendiam bandeiras francesas e americanas. As luzes alaranjadas e embutidas por todo o teto nos davam uma sensação de aconchego e conforto. Era um ambiente luxuoso demais para um colégio.

Me peguei pensando em como eu podia estar matriculada naquele lugar. Eu, Amy Collins, uma garota comum de Nova York, com objetivos que se estendiam apenas em entrar numa faculdade local, cursar administração e trabalhar meio período para a mãe da melhor amiga.

AIP era grande demais para mim. Paris era grande demais para mim.

Como meu pai pode fazer isso comigo?

Me acomodei numa das filas do meio, ao centro do auditório. Comecei a observar cada um que entrava pela porta principal e senti meu estômago oscilar entre quente e frio. Nenhum rosto familiar, nenhuma voz reconhecível. Eu estava cercada de completos estranhos.

À minha direita, havia uma garota negra e aparentemente alta. Seus cabelos eram encaracolados e enfeitados com um lenço colorido. À minha esquerda, um garoto sardento, que usava uma blusa verde com um desenho familiar, que só depois de alguns minutos percebi se tratar do símbolo do Lanterna Verde.

Já na fileira da frente, as cadeiras ainda não tinham sido completamente ocupadas, mas não demorou até que um grupo chegasse e se acomodasse. Eles conversavam como se já tivessem feito isso milhares de vezes, o que me levou a concluir que eles deviam ser veteranos ali.

Eram quatro ao todo – duas garotas e dois garotos.

Uma das meninas, a loira com um turbilhão de pulseiras artesanais em ambos os braços, falava alto e ria muito. E juro ter visto alguns dreads pendendo em seu cabelo. Já a outra, tinha um estilo mais adepto aos anos 60 – ou algo próximo disso. Os cabelos escuros eram cortados na altura da nuca e complementados com uma franja pin-up. Eu só conseguia pensar em Amelie Poulain.

Ela estava nos braços de um magricela, de blusa listrada em preto e branco e muito mousse nos cabelos. Eles me pareceram íntimos demais para serem somente amigos.

O outro garoto estava mais quieto, afundado na poltrona, roendo as unhas. Devido a sua situação vegetativa, eu não consegui focalizar seu rosto, somente seus ombros – que eram bem largos, aliás – e seu cabelo. Um cabelo escuro, desordenado e, aparentemente, sedoso.

Não.

Com certeza era sedoso.

Cabelo bonito. Muito bonito.

De repente, as luzes principais se apagaram completamente, e as únicas partes iluminadas do auditório eram luzes embutidas laterais e o palco, onde uma mulher de estatura mediana, vestindo um terninho claro e abusando de um coque trabalhado no laquê subiu e se acomodou atrás do pedestal.

– Bom dia a todos os presentes – ela falou com uma voz macia e encarou o seu público com um sorriso. Respondemos em uníssono ao seu cumprimento e ela prosseguiu – Aos que ainda não me conhecem, sou Grace Adams, a diretora.

O discurso que se seguiu pode ser tachado como: clichê.

Juro que esperava mais. Esperava algo revolucionário. Algo como um malabarista falando sobre as regras de convivência no colégio, ou que a diretora cantasse ópera. Qualquer coisa. Talvez a culpa disso fosse por eu ser do tipo que sempre espera mais dos outros, que cria expectativas em tudo o que faz.

– E sei que este ano será incrível… – ela falava enquanto eu sentia algo vibrar na mochila que eu havia trazido comigo.

Espera.

Como é?

Coloquei a mão sobre minha bolsa novamente e confirmei: meu celular estava vibrando. Deus! Estava vibrando e meu coração estava acelerado. Eu o tinha desligado. Assim que terminara a ligação com Kate, eu desligara meu aparelho e colocara na bolsa. Eu tinha desligado!

Não tinha?

Abri o bolso principal e comecei a futricar meus pertences atrás do celular, que começava a cantarolar as primeiras notas de She’s Only 18.

– Seu celular está tocando – o garoto, aparentemente viciado em filmes da Marvel ou qualquer outra facção a que fosse pertencente o Lanterna Verde, disse com a voz baixa, apontando para a minha bolsa. Olhei para ele e eu queria chorar, mas só assenti com a cabeça e tornei a buscar pelo meu aparelho.

A ansiedade só aumentava. Onde estava aquele maldito celular?

Senti todo o corpo formigar, e meu estômago já tinha dado um nó àquela altura do campeonato. O auditório, antes espaçoso, se tornou pequeno demais para o tamanho do meu desespero.

Comecei a praguejar o fato de aquela mochila ter tantos compartimentos. Ficava impossível achar qualquer coisa com tantos esconderijos. A música estava ficando mais alta. E mais alta. E muito mais alta. Senti minhas pernas bambearem quando Red Hot Chili Peppers invadiu todo o espaço – e bambearam ainda mais quando notei um olhar sobre mim.

O menino do cabelo bonito.

Uau.

Céus! Eu tinha que focar.

Ele havia se virado e me encarava de forma brutal. Droga. Ele sabia que o celular era meu. Será que ia me dedurar? Logo os seus amigos também ficaram inquietos com a música que continuava tocando, e se viraram para procurar a origem do som – e me viram quase sofrendo um infarto agudo do miocárdio enquanto revirava aquele baú sem fundo.

Ótimo! Agora todos sabiam que eu era a culpada.

Pelo menos eu corria o risco de ser banida daquele colégio ridículo e poderia voltar para a minha vida normal em Nova York. Me desculpe, papai.

– Tente o bolso da frente – ele falou sussurrando, como se contasse um segredo e sorriu com o canto da boca, ainda me encarando. Fiquei congelada por alguns instantes, tentando processar tanta beleza e sensualidade numa pessoa só. E que estava falando comigo!

Em meio ao pânico e a euforia por ter um garoto bonito falando com a minha pessoa – não me dou bem com garotos bonitos, é a história da minha vida – levei a mão até o bolso da frente e arranquei um celular dando um belo show de rock para quem quisesse ouvir – e percebi que era o alarme.

Bom, pelo menos eu realmente tinha desligado o celular.

Não estava ficando louca. Ainda.

Desativei o modo soneca e arfei afundando no meu assento. Como eu pude ser tão burra ao ponto de me esquecer do maldito alarme? Um alarme que eu só usava em Nova York, para eu me lembrar do horário de um reality show babaca do qual eu gostava e costumava assistir. Definitivamente constrangedor.

– Sr. Adams, poderia nos fazer o favor de desligar o seu aparelho celular… De novo? – foi quando acordei do meu rápido devaneio e notei que a diretora estava chamando a atenção de um tal Sr. Adams. Não sabia que Adams poderia ser um sobrenome tão comum.

Mas por que estava chamando a atenção dele?

Aliás, quem era ele?

Não deviam estar brigando comigo?

Daí percebi que todos olhavam na minha direção. Ou talvez na direção um pouco abaixo da minha. Ou melhor dizendo, na direção logo a minha frente, onde estava o garoto de cabelos escuros, que ainda me olhava – agora, inexpressivo.

Quase pude sentir o cheiro de algo queimando quando consegui usar meus neurônios e juntar os pontinhos, como os daqueles desenhos de crianças de três anos, e perceber que o auditório prestava a atenção ao moreno, devido ao fato de ele ser o Sr. Adams. O qual estava recebendo um puxão de orelha da diretora por, provavelmente, estar sendo culpado pelo o meu celular escandaloso.

Isso fazia sentido?

Por que estavam culpando a ele?

Seus amigos então começaram a encará-lo e cutucá-lo, para que ele se virasse e respondesse à diretora, ou qualquer coisa do gênero, mas como ele não o fez, passaram a olhar para mim e esperar alguma atitude. E eu sabia que devia tomar alguma atitude, pois a culpada era eu e não ele.

Meus joelhos tremiam tanto, que eu pensei que estivesse acontecendo um terremoto. Minhas mãos se tornaram cachoeiras de suor. Respirei fundo e quando eu me preparei para abrir a boca e falar que eu era a dona do celular que estava tocando e não o Adams em questão, ele se virou ficando de pé e começou a se desculpar.

– Sinto muito, não vai acontecer de novo.

– Da última vez você também disse algo parecido – a diretora cortou. Ai, não! Precisava intervir naquela maluquice. Eu era a culpada. Eu tinha que arcar com as consequências. Por que ele tinha assumido a responsabilidade por aquilo? Era idiotice.

Claro, uma idiotice que me agradara muito, mas ainda assim, uma idiotice.

– O que ele está fazendo? – a loira sussurrou para o casal e o magricela deu de ombros e voltou a olhar para o amigo, que estava se redimindo no meu lugar.

– Eu sei, sinto muito. Não vai se repetir, mãe.

Mãe?

Quero dizer, é comum os alunos chamarem suas diretoras do colégio de mãe ou Grace Adams era realmente a sua mãe? Certo, ele não teria a chamado de mãe se ela realmente não fosse sua responsável. Então, obviamente, ele era o filho da diretora. O filho da proprietária. Não podia ser expulso e nem nada do tipo – e mesmo se tivesse algum castigo, seria mais brando, não é?

Só podia ser.

Só isso explicaria o porquê de ter assumido a culpa por mim.

Comecei a imaginar se ele fazia isso sempre. Tipo um hobby.

– Assim espero – ela disse e um silêncio macabro tomou conta do auditório – Agora, sente-se.

O garoto obedeceu e afundou na poltrona novamente. Houve um breve burburinho entre os seus amigos, que perguntavam se ele estava bem, o que tinha dado nele e coisas do tipo.

E admito que, algumas vezes, senti um olhar ameaçador da loira sobre mim.

A palestra seguiu como se nada – ou quase nada – tivesse acontecido. E ao longo dela eu tentei bolar alguma coisa a altura da camaradagem do moreno para que pudesse agradecê-lo. Talvez comprar e decorar uma faixa de cinco metros fosse inapropriado e complexo demais.

Uma carta? Não mesmo. Nem sabia onde ele morava.

Talvez uma mensagem de texto. Seria irônico, levando em conta que nós havíamos nos “conhecido” através de um incidente com um celular. Mas eu nem tinha seu número e não fazia ideia de como conseguir sem ter de pedir diretamente para ele.

Sem falar que, mesmo se eu conseguisse, ele me acharia a psicopata do século.

Tudo bem, algo mais simples poderia cair bem também. Avancei calmamente com o corpo para frente e o cutuquei no ombro direito. Eu não podia gaguejar, só não podia gaguejar. Ele se ergueu um pouco, olhando para mim pelo canto dos olhos.

– Obrigada – falei.

Ele continuou estático naquela posição, sem dizer nenhuma palavra – o que fez com que eu me mantivesse igualmente parada, aguardando alguma resposta, ou qualquer outra reação semelhante a essa.

– Não precisava ter assumido a culpa, mas assumiu e…

– Para de falar – ele me interrompeu de um jeito frio, o que foi uma surpresa, pois eu não esperava aquela postura de um cara que acabara de me ajudar.

Ele devia ser mais cavalheiro, não?

– Fico feliz em servir – completou em seguida, agora com uma voz mansa, virando seu rosto totalmente para a minha direção.

E mesmo com a luz baixa, eu podia ver os seus traços.

Ele era bonito, bonito mesmo.

Meu corpo relaxou quando senti seu tom de voz se tornar mais amigável. Abri um sorriso tanto agradecido como aliviado e ele retribuiu, e depois voltamos a prestar a atenção ao término do discurso de sua… bom, de sua mãe.

Música: She’s Only 18
Artista: Red Hot Chilli Peppers

3 comentários sobre “Ela só tem 18

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