Giro a chave enquanto ouço o barulho da chuva. Não está realmente chovendo, mas é o ruído na minha cabeça. As gotas acertam o chão do meu crânio e harmonizam com o eco do silêncio. A confusão que as nuvens causam na minha mente faz com que eu tenha vontade de voltar. Não volto.
Dentro da casa, completamente vazia, me sinto à vontade. Sua família pediu para que eu ajudasse na venda da casa para que não precisassem vir sempre aqui. Entendo que é doloroso, mas gosto desse lugar. Desde que você se foi, meu conforto é me apegar a essas lembranças.
Meu cabelo, agora grisalho, acusa o tempo da nossa existência. Ou será que acusa a nossa existência no tempo? Se estas paredes falassem, elas responderiam.
O frio das chaves nos meus dedos me deixa apreensivo. Guardo-as no bolso, enquanto um raio de luz pálida cruza a sala e vai até a parede oposta, onde costumava ficar o seu sofá. Naquele sofá, que foi várias vezes trocado durante os anos, onde tínhamos nossas conversas sobre a origem da existência e outros temas tão triviais. Bom, ao menos agora, essas coisas me são triviais. Mas eu gostei de cada uma daquelas conversas. Se estas paredes falassem, elas diriam que entendem minha dor.
O espaço vazio no meio da sua antiga sala de estar é uma metáfora perfeita. Ali foi onde passamos boa parte do tempo entre família e amigos. Como eram bons os nossos anos de introversão extrovertida! Se estas paredes falassem, elas diriam que sim.
Quando abri a porta, o som vazio do vento parecia uma lamúria. No antigo quarto, onde você e sua mulher dormiam, não tinha sobrado nada, afora alguns pregos deixados na parede e buracos na pintura. Lembro-me do seu casamento, também. Nossas fotos juntos e seu rosto de felicidade. O único sorriso que, tenho certeza, não foi abalado pelos anos. Se estas paredes falassem, elas diriam que aqueles eram dias bons.
Volto para a sala de estar. Vejo a cozinha vazia e me lembro de nossas refeições improvisadas e nosso choro lançado à sorte do mar do álcool. Todos sempre disseram que parecíamos irmãos. Discordávamos. Se fôssemos, o mundo seria perfeito demais. Se estas paredes falassem, elas diriam que fizemos tudo o que podíamos.
Agora resta a alegria de saber que você completou seu ciclo, a gratidão de poder ter sido parte de uma vida tão completa e a tristeza. Sim, a tristeza por ter sido você a partir primeiro. Por não voltar e dizer era só uma brincadeira e deixar meu peito tão frio quanto o vento de uma manhã de inverno. Se estas paredes falassem, eu ouviria que sou um tolo.
Fecho os olhos, devagar, contendo todas aquelas imagens dos nossos anos juntos, meu amigo. Nossas risadas sobre a sua sala de estar, nossas conversas triviais na sua adolescência e quando eu segurei seu filho pela primeira vez. Deixo que o escuro leve essas imagens. Preciso seguir em frente e completar o meu próprio ciclo.
Os compradores e o corretor devem chegar a qualquer momento, mas não posso conter os trovões dentro da minha cabeça, nem as nuvens que ofuscam a minha mente. Não posso controlar o som do vento que, em prantos, grita no meu ouvido. Não posso culpar o sol pálido por amanhecer triste. O barulho da chuva é o som oco das minhas lágrimas.
Se estas paredes falassem, elas estariam em silêncio.
Música: If these walls could speak
Artista: Clouds


F#da de mais big Jorge
Jorge, esse texto é incrível! Já disse isso, mas é só pra ressaltar… haha
Conheci essa música por este conto e.. ambos BELOS! Parabéns
Infelizmente essa banda não tem o reconhecimento que merece. É uma música incrível e eu fico feliz em contribuir para que você conheça artistas diferentes! 😉