As paredes estão soltas e a brasa do cigarro deixou um buraco no sofá. Ouço botas subindo as escadas do prédio e penso que você está próxima o suficiente para que eu possa lhe chamar, mesmo sabendo que não me ouvirá. Talvez, se chegar um pouco mais perto.
Penso nas vezes que nos chamamos de longe. E em como era a sintonia de dois corpos que pertenciam a um só lugar. Como daquela vez que te liguei e você não deixou tocar, pois esperava minha ligação. Lembra de como me chamava? Lembro que certa vez me atendeu dizendo que podia sentir meu rancor. Será que ainda estamos na mesma sintonia?
Tento levantar, mas o corpo já machucado de excessos, amores e amores em excesso reclama. Tenho tido muitos pesadelos e em todos eles a única certeza é que você não está. Os passos nas escadas marcam o ritmo denso da minha marcha fúnebre, como o baixo que você insistia em tocar e eu nunca fiz questão de escutar. Substitui o tic-tac do relógio na parede que não marca nada, além de lugar.
Como é mesmo aquela frase que usou no dia que estava atrasada? Lembro da tarde virando noite, da cerveja gelada em minha mão enquanto eu lhe admirava vestindo as roupas e da gargalhada que nos fez voltar para cama. Mas não consigo lembrar da sua frase. Aquelas horas foram como uma pausa ou uma dicotomia temporal? Se estivesse aqui concordaríamos que foi uma vibração diferente das cordas. Daquela teoria de tudo que nos tranquiliza por sabermos que somos nós, em qualquer parte ou em alguma delas. De algum modo somos um do outro, somos um só e vivemos isso que não soubemos levar.
Adorava quando me contava de suas descobertas e me ensinava coisas que eu jamais teria parado para olhar, e era tão raro você se abrir. Sua reserva me instigava e eu me sentia um menino tentando impressionar a prima mais velha nas férias de final de ano. Lhe contava histórias, das mais escabrosas às mais íntimas, e você ria solta como uma pipa no céu. Saudade de sua leveza sobre meu peito.
Os passos aproximam pelo corredor e eu me esforço para entender em que dia estou. Após sua partida não tive coragem de trocar a lâmpada, assim como você disse que aconteceria. E já não sei se é noite ou dia. Sem forças para chegar até a janela e afastar o blackout das cortinas aqui dentro. Alcanço à garrafa e bebo um gole de uma cerveja pastosa que ferve em minha garganta. Aqui tem sido tão diferente daquela casa sem cômodos com um tapete grande no meio, uma estante de livros e um colchão no chão. Daquela árvore que fazia sombra para que pudesse brincar na lira de nossos sonhos enquanto ríamos de nossa simplicidade. Foram tantos momentos divididos. Em tão pouco tempo. Mas não fizemos planos. Não tivemos um norte que nos aproximasse. E era tudo tão leve quanto sua cabeça sobre meu peito.
Sinto minhas pernas bambas, como se há tempos não aguentassem o peso do meu corpo. O gole da cerveja bate em meu estômago e consigo escutar o eco dentro de mim. Você se foi e levou um pedaço tão grande, e de recorte tão estranho que não acharei nada que o preencha. Será algum truque seu? Ou uma carta na manga que fará da sua mágica meu sorriso ao lhe ver em minha porta? Você irá voltar?
Refaço nossa história e durante todo o caminho lhe vejo sorrindo no final. Uma agonia estranha de saber que essa trama será arrastada pela maré do cotidiano. É agora aquela parte da música que não sabemos cantar? Entre tantas juras não sobrou nenhuma que nos fizesse ficar?
E eu quero saber?
Os passos aproximaram tanto que posso ouvir seu baixo aumentando no refrão. Você criou coragem? Eu realmente acreditei que ficaria. Que viveríamos em nosso mundo paralelo e que não haveria quem nos separasse. Talvez não percebeu que eu ainda estou tão na sua. Mas olhando para porta, agora já com a cara no chão, sufocado pelo peso de minhas escolhas, não vejo ninguém. E nem escuto passos. Me arrasto até o telefone para não me arrastar mais entre os dias. Será que eu tenho coragem? Será que irá me escutar?
Música: Do I Wanna Know?
Artista: Arctic Monkeys


Arthur, que encanto!!
Li e reli absorvendo cada acorde, cada passo e cada sentimento exposto.
Primeiro a minha leitura foi um eco, e quando cheguei no final e liguei o play a derme arrepiou. Suspirei e pude escutar cada letra contada aqui. Uma coragem que ultrapassa essa nossa sentimentalidade cheia de vontades.
Lindo demais, Arthur!!!
Eu simplesmente amei esse conto! Parabéns pelo trabalho!!